Uma vez eu escrevi um conto sobre um homem solitário que foi lobotomizado de seus sentimentos, antes mesmo de nascer. Ele apenas era, ou talvez apenas fosse o que outros achavam, trabalhava, assistia a televisão, enfrentava a fila do banco por não saber usar o caixa eletrônico e atravessava a rua sem olhar para os dois lados pois não sentia medo. Ele não era suicida, não era alto astral. Trabalhava arrumando documentos antigos, desapercebido.
A grande piada desse conto é que parece que eu me tornei esse homem sem nome, após tanto tempo querendo viver assim. Eu não quero viver, nem sobreviver. Eu quero morar numa quitinete, sem um centavo no banco, pagar minha conta de luz de oitenta reais, minha conta de gás de trinta reais, sentar todos os dias no mesmo banco, do mesmo ônibus, que passa na mesma hora. Trabalhar sem sobressaltos, ganhando o mesmo dinheiro, todo o mês, numa sala empoeirada entre papéis amarelos e esburacados. Chegar em casa, jantar a mesma comida gelada do fim de semana. Tomar meu antialérgico de primeira geração, dormir sem escovar os dentes com a minha roupa do dia anterior. Acordar no dia seguinte com meu nariz ressacado, minha garganta ressacada, meus olhos secos. Pegar o ônibus, sentar no banco elevado que fica sobre a roda, que passa às 6:45 da manhã, de segunda a sexta.
Já falei que não quero viver. Eu não quero mais porra nenhuma.
Não sei nem mesmo como redigir.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
18.Mai
Posted by carolina m | 17:59 |
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